VOCÊ SABIA...que, no dia 21 de
setembro de 1966, o centro de Ribeirão Preto transformou-se em um campo de
batalha e que o 3º arcebispo
DOM FREI FELÍCIO CÉSAR DA CUNHA VASCONCELLOS-OFM insurgiu-se
contra a violência policial? Dom
Frei Felício nasceu, em Dores de Camaquã-RS (hoje Sentinela do Sul), no dia 25/05/1904.
Ingressou na Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) e foi missionário nos
Estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, de 1945 a 1949. Foi Bispo
de Penedo-AL, desde 1949 até 1957. De 1957 a 1965 foi Arcebispo
Coadjutor de Florianópolis-SC. No dia 25/03/1965, o Papa Paulo VI o
nomeou Arcebispo de Ribeirão Preto, tendo tomado posse no dia 19/06/1965.
A par de seu profícuo trabalho pastoral, dois episódios marcaram,
indelevelmente, a presença de Dom Felício entre nós: a repressão policial
aos estudantes e a prisão e tortura de Madre Maurina, uma religiosa diretora do
Lar Santana. No período de exceção após-64, como é sabido, qualquer movimento
contestatório era proibido e reprimido. Em 1966, o governo militar
firmou uma parceria com os Estados Unidos para a implantação do modelo
educacional norte-americano. Era um período de resistência e aquele que
ficou conhecido como "Acordo MEC-USAID" sofreu ampla crítica
do movimento estudantil. Ocorreram inúmeras manifestações de protesto em
diversas universidades brasileiras, fortalecendo a articulação do movimento
estudantil. Por aqui, articularam-se os Centro Acadêmicos “Rocha Lima”,
da Faculdade de Medicina, o Centro Acadêmico “Carneiro Leão”, da Faculdade de
Odontologia, o Centro Acadêmico “1º de setembro”, da Faculdade de Direito
“Laudo Camargo”, e, ainda, os estudantes de Enfermagem, bem como os estudantes
secundaristas e aqueles jovens pertencentes à JAC (juventude agrária), JEC
(juventude estudantil), JIC (juventude industrial), JOC (juventude operária) e
JUC (juventude universitária), todas católicas. Assim é que, nesse dia, na
esquina das ruas Álvares Cabral e São Sebastião (Café Única), se reuniram para
seguirem, em passeata. Ao atingirem a Praça Rio Branco (Prefeitura), ocorreram
os primeiros confrontos. Acuada, a passeata dividiu-se. Uma parte
seguiu em direção ao I.E. “Otoniel Mota”, na rua Prudente de Morais, e a outra
para a Praça das Bandeiras, defronte à Catedral. Com a chegada da cavalaria,
a repressão acentuou-se. Os estudantes refugiaram-se no templo, sendo
espancados até mesmo ali. Abrigaram-se, também, na sede do jornal
“Diário de Notícias”, na Visconde de Inhaúma, e ainda no Palácio Episcopal,
na rua Lafaiete. O relógio marcava 20 horas, quando o arcebispo Dom Frei
Felício César da Cunha Vasconcelos, então com 62 anos e com a saúde frágil,
saiu às ruas e, em atitude corajosa, segurou as rédeas de um cavalo e, gritando
“Parem com isso!”, impediu que o cavalariano continuasse a investir
contra os manifestantes. Igualmente tentando apaziguar, e em auxílio ao prelado,
o cônego Angélico Sândalo Bernardino e o Padre Danilo Menezes também foram
às ruas, socorrendo vários estudantes feridos, ao que mostraram para D.
Felício, que interpelou, veementemente, a Polícia, bradando: “Não admito
essa violência, muito menos dentro da Catedral!”. Os policiais
resolveram recuar. Dom Felício, então, conversou com os jovens, ponderando-lhes:
- “Eu só quero uma coisa: que vocês voltem para casa". “Vocês já
fizeram a manifestação”. Assim os estudantes saíram em blocos e foi o fim
da manifestação. Por outro lado, no episódio de Madre Maurina, ocorrido em
1969, foi ela presa e torturada porque, na condição de diretora do Lar
Santana, teria ajudado elementos subversivos. No episódio, Dom Felício
mostrou-se indignado e excomungou os delegados Renato Ribeiro Soares e Miguel
Lamano, que a prenderam, gesto que teve repercussão internacional. A
religiosa foi transferida para o presídio Tiradentes, em São Paulo, e mais
tarde para o presídio Feminino de Tremembé, onde foi interrogada pelo delegado Sérgio
Paranhos Fleury e novamente torturada. Assim Dom Paulo Evaristo Arns
descreve a ação do Arcebispo: “Sei que em Ribeirão Preto as atrocidades foram
sem propósito, a ponto de o meu irmão e amigo dom Felício Vasconcelos pedir a
excomunhão dos dois delegados que permitiram que a seviciassem. D. Felício era
um gaúcho bravo, temido pelos militares”. De qualquer forma foi um homem de
atitudes firmes e corajosas. Dom Frei Felício faleceu no dia 11 de julho de 1972. Em sua
homenagem foi nomeada a escola “EEB Dom Felício César da Cunha Vasconcelos”, em
Irani-SC, e uma rua do bairro Vila Exposição, em Franca-SP. Aqui em Ribeirão,
nenhuma homenagem lhe foi prestada nesse sentido.
VEJA TEXTOS SOBRE DOM FELÍCIO CÉSAR:
https://arquidioceserp.org.br/dom-frei-felicio-e-a-luta-pelos-direitos-humanos-durante-a-ditadura-civil-militar/
https://arquidioceserp.org.br/a-ecoante-voz-do-arcebispo-franciscano-1965-1972/
VEJA FOTO DE DOM FELÍCIO, NO
LINK
https://www.facebook.com/photo/?fbid=873738882659806&set=gm.724887844255432