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Ribeirão Preto
Sumário / Índice
Os tres irmãos siamezes
de DA VEIGA MIRANDA , João Pedro
Ano: 1926
Nº de Páginas: 355 pp.
Editora: O Commentario - Secção D´O Estado de São Paulo
O livro discorre sobre as lutas políticas que ocorreram na década de 1910. Nesse tempo Veiga Miranda, Renato Jardim e Francisco Schmidt eram alcunhados de "os três irmãos siameses", pois, além de correligionários, eram inseparáveis. No enredo, se refere a três amigos íntimos, verdadeiros “ irmãos siameses”. João Carlos, jornalista, conquistou, pela sua pena, o respeito geral, porque todos viam a sinceridade de sua campanha. César Rezende, engenheiro, teve um grande infortúnio na sua vida, mas esse infortúnio, longe de o tornar cético e mau, o impeliu para o bem, e para o estudo das ciências naturais. O terceiro, Elpídio Garcia Borges, advogado, chegou à fortuna, dada a dedicação à causa de um desconhecido. Desses três homens, entretanto a fatalidade faz com que um acabe traindo o outro. Elpídio cobiçava a filha de César, que o traía com sua esposa Inah. Só João Carlos mantém-se todo puro do princípio ao fim do livro. Esse, porém, torna-se vítima da injusta cólera popular. A história se passa em Ribeirão Preto, na década de 1910. O jornal “Diário da Manhã”, tendo João Carlos por redator, ficava defronte o Parque Central, em frente do Teatro Carlos Gomes. O advogado Elpídio tinha o escritório no flanco esquerdo do Largo, um casarão baixo, com frente para o Teatro. Era casado com a cariosa Inah e tinha a filha Ignezita.
A forma como Elpídio chegou à fortuna se inicia com a morte de Delfino Pereira, conhecido por Delfino Sujo, que morreu sem testamento. Quando “a Pereirada”, seus sobrinhos, se preparava para ficar com a herança, apareceu um filho, Marcelo, tendo Elpídio por advogado. João Carlos, através das páginas do jornal, desde a primeira hora, abraçou a causa de Marcelo, fazendo repercutir os atos do longo processo, as diligências, os exames. Em Ribeirão Preto, na primeira instância, a decisão foi desfavorável a Marcelo. Houve foguetório da “Pereirada”, que chegaram a apedrejar a casa do advogado Elpídio. Processada e julgada a Apelação, o acórdão reformou a sentença, reconhecendo a condição de filho de Marcelo e mandando lhe adjudicar a herança. Mas Marcelo não chegou a aproveitar disso. Numa briga na zona do meretrício acabou sendo ferido gravemente. No leito de morte, na presença de sacerdote e notário lavrou testamento, deixando todos os seus bens para Elpídio. Os membros da família Pereira recorreram ao Supremo Tribunal Federal, o qual, por Acórdão datado de 04 de outubro de 1.916, definiu a pendência em favor de Elpídio. Ainda durante o processo, enquanto Marcelo estava vivo, a ”Pereirada” lançou calúnias contra as famílias Mascarenhas ( de Inah) e Borges ( de Elpídio), através do jornal “”A Lanterna”. Em razão disso, o casal passou a ser desprezado até pelos amigos e, em razão disso, Inah abespinhou-se contra Marcelo, que residia na casa do advogado, xingando-o e humilhando, atribuindo-lhe serviços domésticos inferiores. Isso motivou rusgas entre o casal. Em face das picuinhas de Inah, Elpídio quase se mudou de Ribeirão Preto, só não o fazendo em razão do grande apoio e incentivo que lhe prestaram João Carlos e César Rezende. Inah chegou ao ponto de intermediar uma proposta dos Pereira para que Elpídio desistisse do recurso. Além disso, Inah passou a efetuar gastos, tanto é que Elpidio teve que levantar empréstimo para ela passar um mês na casa dos pais em São Paulo. Ao lado de João Carlos, no “Diário da Manhã”, posicionando-se do lado da verdade, estava o grupo autodenominado de “Parnaso” ou “Redondel” ( os inimigos atribuíam a eles o termo irônico de “Poetas”), composto por Celso Góes, Albano Castro, Tullo Lopes, João Simas e Silvestre Palha.
João Carlos, às vezes, se aborrecia com a gente da cidade. Comentava o tipo de desenvolvimento que via, baseado no dinheiro, sem preocupação com a beleza, cultura ou espiritualidade. Entendia que se devia mirar no exemplo de César Rezende, um naturalista notável, que caçava borboletas, colecionava orquídeas e estudava as fibras das plantas. Admirava o velho Loyola, alma de poeta aos setenta anos, amando as suas rosas e oferecendo, gentilmente cravos. Contemplava com admiração o velho Barreto, um sábio, um filósofo, um assombro de conhecimento de Biologia, de erudição literária e de descortino patriótico. Também o Padre Euclides, abrindo oficinas, aulas noturnas, bibliotecas, espalhando-se desde o Asilo de Invalidos e a Santa Casa até o Liceu de São Benedito e a Legião Brasileira.O jornal viera parar em suas mãos porque o anterior responsável passou a denunciar a noite de Ribeirão Preto, como uma coisa devassa, não tendo sido capaz de entender que um dos encantos da cidade era justamente a sua vida noturna pitoresca e alegre. César Rezende era casado com Ophélia e pai de Irene. Ophélia, depois de uma viagem à Europa, não retornou mais a Ribeirão Preto, não se sabendo se fora internada em uma sanatório ou teria se recolhido em um convento. Na verdade, Ophélia durante a viagem se transformara, acabando ficando por lá. Tinha no fundo do quintal de sua casa um vasto pavilhão, a que chamava “Palácio dos Três Reinos”, consagrado à Geologia, Zoologia e Botânica. Elpídio e César eram confidentes. A filha de Elpídio Ignezita ficou gravemente enferma, o que aumentou a desavença do casal, pois Inah supunha que a filha estaria sofrendo os maus flúidos de Delfino Sujo por ter a sua fortuna ido parar em mãos estranhas. O casal residia na “Chácara das Magnólias”, em Santa Cruz do José Jacques. Era a época da 1ª. Grande Guerra e o presidente Wenceslau Braz mantinha o Brasil neutro. O período era de grandes negócios, com a cidade cheia de compradores de café, algodão e caixeiros-viajantes. As casas noturnas “Casino” e “Eldorado” fervilhavam. Além dos cabarés elegantes, os “chalets”, o “Parque do Rio Pardo”, a “Floresta, a Pensão Chic, Pensão Milonguita, Pensão Oriental, a Pensão da Gata Preta e muitas outras, com belas mulheres, a maioria importada e os jogos de baccarat, a roleta, o campista. João Carlos era um entusiasta dessa feição boêmia, viciosa e perdulária da sua cidade. Em artigos escritos no jornal, sempre defendeu os empresários da noite. Por essa razão, foi efusivamente homenageado no dia 04 de julho, data nacional francesa. Todos os anos, nesse dia, François Cassoulet saía em farandula, em frente de suas artistas com uma banda tocando a “Marselheza”. Nessa época de incertezas, João Carlos era presidente do Tiro de Guerra e os membros da redação, ali compareciam vestidos com o uniforme militar. Solteiro, o redator frequentava as artistas. Teve um “affair” com Maria Del Bianco, que foi substituída pela turinese Ítala Varna, antiga amante do fazendeiro Nenem Ferraz. Nenem Ferraz vingou-se , dando-lhe um tiro.Nessa época, Elpídio começou a lançar olhares furtivos sobre Irene Rezende, filha de César. Fazia reflexões, à La Byron, lamentando a seriedade de toda uma vida, pretendendo criar coragem para declarar-se à amada. A ex-esposa deste, Ophélia, que ficara na Europa, tornara-se uma dançarina com o nome de Ottília Moreno. Apesar de ter cuidado de Ítala, enquanto se recuperava dos ferimentos recebidos, João Carlos ponderou a Ítala que devesse se casar com Nenem Ferraz e tornar-se uma dama da sociedade. Enquanto cobiçava Irene, Elpídio passou a ser traído pela esposa Inah e pelo amigo César. João Carlos, antes um fervoroso defensor da entrada do Brasil na guerra contra os alemães, acabou fazendo um artigo, que foi interpretado como sendo amigável para com eles. Daí a oportunidade de desforra dos que teriam, em alguma ocasião, sido prejudicados pelo “Diário da Manhã”. A pretexto de uma missão patriótica, uma turba, insuflado pelos “Pereira” e pela gente dos jornais “Lanterna” e “Eco”, dirigiu-se para a casa do alemão Kraus. Em defesa deste, João Carlos enfrentou-os de peito aberto. A Polícia, comandada pelo Delegado Dr. Galeno evitou a tempo o empastelamento do “Diário da Manhã”. Desanimado, João Carlos foi confortado pelas palavras dos poetas. Mas a chusma retornou. Desta vez foi contida por Itala, trazendo consigo dois capatazes armados, os quais fizeram tiros de advertência fazendo com que a multidão dispersasse, deixando a praça livre. Deixando as instalações do jornal, sob a custódia da Polícia, João Carlos retirou-se com Ítala para a fazenda, uma vez que Nenem Ferraz fora para São Paulo ver a mãe doente...
O autor João Pedro da Veiga Miranda nasceu em Campanha, MG, em 11/4/1881. Filho de Manoel Inácio de Miranda e Josefina Carolina da Veiga, foi engenheiro, escritor, professor e democrata. Em 11 de maio de 1.905, casou-se com Albertina Vilela de Andrade Junqueira, filha do Capitão Joaquim Firmino de Andrade Junqueira, grande cafeicultor em Ribeirão Preto. Criado o Gymnasio de Ribeirão Preto, em 1906, pleiteou uma cátedra técnica, mas foi preterido por política, lhe tendo sido dada a cadeira de lente de italiano. Em 1.908, foi eleito vereador, tendo sido prefeito nos anos de 1.908 a 1.909, quando renunciou aos cargos por divergência com o líder político Cel. Joaquim ( Quinzinho) da Cunha Diniz Junqueira, o qual apoiou para presidente da República Hermes da Fonseca, sendo que Veiga Miranda se batera por Ruy Barbosa. Em 1.910, tornou a se eleger vereador. Em 1.916, foi eleito deputado estadual, não tendo completado a legislatura, pois, em 1918, foi eleito deputado federal pelo 3º Districto. Reeleito em 1.921, foi nomeado Ministro da Marinha, do governo Epitácio Pessoa, cargo que exerceu até o final do governo em 15 de novembro de 1.922. Como jornalista, trabalhou para o “Diário da Manhã” e fundo, em 1926, a revista literária “Comentário”, que chegou a publicar 18 edições por ano e que alcançou um lugar de destaque entre as publicações brasileira, . Publicou, ainda, vários livros Depois de ter tido uma vida pública honesta, faleceu em Ribeirão Preto, SP, no dia 17/2/1936, antes tendo se queixado, em correspondências enviadas a amigos, da falta de dinheiro e do ostracismo político a que foi relegado. Como homenagem recebeu o nome de uma rua e de uma escola de primeiro grau.
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